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| A ideia de "raça superior" como justificativa para o extermínio. Na Alemanha de Hitler, doentes mentais não podiam procriar. |
Tereza (nome fictício) mora em Amparo e tem 28 anos. Sofre de retardo mental moderado. Apesar disso, tem namorado fixo e um sonho comum à maioria das mulheres: quer ser mãe.
Mas Tereza não pode ser mãe. Não por qualquer razão biológica, mas porque uma decisão judicial do ano de 2004, tomada a pedido do Ministério Público, a impede. A decisão, aliás, determinou que Tereza realize uma laqueadura, o que só não ocorreu até agora porque, ao longo dos últimos nove anos, ela usou outros dispositivos contraceptivos, como o DIU. O DIU de Tereza venceu no ano passado, mas ela se recusa a substituí-lo, pois tem medo de que, durante o procedimento, seja realizada uma laqueadura contra a sua vontade.
Diante da recusa de Tereza em substituir o DIU, a juíza atualmente responsável pelo caso determinou que a decisão de 2004, que ordena a laqueadura, seja cumprida. Segundo o Estadão, "a laqueadura estava prevista para o dia 21 de dezembro, mas a mulher não foi encontrada, porque se escondeu em outra cidade, por temer que a encontrassem e fizessem a cirurgia que a impediria de se tornar mãe. Uma nova data será marcada para o procedimento". Ainda de acordo com a matéria, "no decorrer do processo, a mulher demonstrou angústia, ansiedade e medo de passar pela esterilização, contra a qual se manifestou todas as vezes em que foi questionada pela Justiça. Ainda em 2004, ela disse que 'mais para a frente', quando arrumasse um 'namorado bom', pretendia ter um filho. Também afirmou que não era uma 'cachorra para ser castrada'. Parentes da mulher afirmaram que ela sempre teve uma disposição natural para cuidar de crianças" (a matéria completa pode ser lida aqui).
Embora a decisão judicial já tenha se tornado definitiva, não cabendo, portanto, nenhum outro recurso, a Defensoria Pública de São Paulo pretende anular a sentença por meio de ação própria.
A Defensoria divulgou hoje em seu site uma nota prestando esclarecimentos sobre o caso. Segundo informa, "um relatório de dezembro de 2012, elaborado por profissionais das áreas de saúde e assistência social que acompanham Tereza, revelam que ela cuida adequadamente de sua saúde, submetendo-se a exames regularmente; que familiares de Tereza apoiam sua recusa em fazer a laqueadura forçada; que sua prima revelou que Tereza já havia cuidado de seu filho e de outras crianças da família de maneira responsável e adequada; e que Tereza expressa desde há muito tempo o desejo de ser mãe um dia."
Resumindo a história: Tereza, uma mulher com leve retardo mental, quer ter um filho. Mas o Estado quer forçá-la a fazer uma laqueadura, o que só não ocorreu até agora porque ela fugiu e se escondeu.
A situação descrita na notícia do Estadão e na nota da Defensoria é estarrecedora, revoltante e inaceitável.
É sempre preciso tomar cuidado com notícias que informam apenas parcialmente. Muitas vezes (quase sempre) não conhecemos todos os lados da história, e a imprensa brasileira, como se sabe, não prima pela ética, nem pelo cuidado na forma como divulga os fatos. Por isso, cautela nunca é demais.
Contudo, em algumas situações, mesmo uns poucos aspectos de um fato são suficientes para que cheguemos a certas conclusões. Parece ser o caso de Tereza.
Do que podemos extrair das notícias, Tereza tem uma família estável que a apoia. Já cuidou das crianças da família. Vem obedecendo à determinação judicial desde 2004 (por mais absurda que seja). Se ela, como quase toda mulher, tem o desejo de ser mãe, o que autoriza o Estado a impedi-la?
Surpreendentemente, tanto a decisão de 2004 quanto a determinação de seu cumprimento em 2012 foram proferidas por juízas, por mulheres - o que sugere a existência de abismos sociais que não respeitam nem mesmo gêneros. Por mais que se doure a pílula, por mais que se afirme que tais medidas visam sobretudo o bem de Tereza (alguém duvida que é esse o argumento?), essa postura bárbara e medieval do Estado tem nome: eugenia.
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| Um dos painéis da exposição "Arte Degenerada", organizada por Hans Posse em 1937. Pinturas expressionistas colocadas ao lado de fotografias de doentes mentais. |
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| Faustão e o "Latininho". A sombra do nazismo entre nós. |
Só nos resta torcer para que a Defensoria Pública consiga reverter essa situação grotesca, e para que o Judiciário não se apegue a um formalismo positivista e superficial. Só nos resta esperar que Tereza volte a ter direito a ter direitos.


