quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Tia Nastácia no STF




Jacira Sampaio, a Tia Nastácia
da versão do Sítio do Picapau
Amarelo
dos anos 70/80.
            
         Ontem à noite, no gabinete do ministro Luiz Fux, do STF, reuniram-se membros do MEC, do Instituto de Advocacia Racial (IARA) e o técnico em gestão educacional Antonio Gomes da Costa Neto, para discutir a adoção do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). O IARA e Costa Neto impetraram um mandado de segurança para retirar a obra do PNBE, por conta das expressões racistas que Monteiro Lobato usa para se referir à personagem Tia Nastácia, do Sítio do Picapau Amarelo, tais como “macaca de carvão”.
            Para o MEC, uma nota explicativa, contextualizando o enfoque (inegavelmente racista) da obra – que, é bom lembrar, foi escrita na década de 30 – é alerta suficiente para os alunos. O IARA e Costa Neto informaram à imprensa que podem desistir da ação se o MEC adotar medidas mais concretas, como a capacitação dos professores para explicar a obra aos alunos.
            Pergunto-me que tipo de qualificação seria necessária para que um professor lidasse com o tema do racismo em salas de aula. Vendo por outro ângulo: um professor que não saiba discutir racismo com uma sala de aula pode ser professor?
Monteiro Lobato
            Monteiro Lobato era não só racista – se alguém duvida, basta ler O Presidente Negro, seu único romance para adultos, no qual defende a eugenia e critica a miscigenação – como também reacionário de carteirinha. Em seu artigo Paranoia ou mistificação, de 1917, atacou a segunda exposição de Anita Malfati com ferocidade, equiparando seus “quadrinhos” a caricaturas e tornando-a mártir dos modernistas. Nos inúmeros livros do Sítio do Picapau Amarelo, as duas únicas personagens negras “fixas” são Tia Nastácia e o Saci. E não é só em Caçadas de Pedrinho que Tia Nastácia é tratada de forma racista. No segundo volume de  Reinações de Narizinho, por exemplo, há o seguinte diálogo:

        Todos tomaram café, menos Cinderela.
     - Só tomo leite - explicou a linda princesa. - Tenho medo de que o café me deixe morena.
     - Faz muito bem - disse Emília. - Foi de tanto tomar café que Tia Nastácia ficou preta assim...

            É claro que é preciso contextualizar as obras de arte, principalmente quando apresentadas a crianças. É claro que outros livros da coleção do Sítio, que não contivessem expressões racistas tão evidentes, poderiam ter sido adotados. Mas acreditar que o poder público pode elaborar uma orientação normativa geral, válida para os quatro cantos do país, para capacitar professores a lidar com o racismo é uma ingenuidade. Será que um professor de Santa Catarina deve lidar com o racismo em sala de aula nos mesmos termos que um professor do Rio Grande do Norte? Acredito que não. As abordagens têm de ser adaptadas às realidades com as quais o professor lida.
         É também ingenuidade achar que uma criança se tornará mais (ou menos) racista por ter lido Caçadas de Pedrinho.
            Racismo não é algo que surge da leitura de um livro infantil, nem algo que se combata de forma simplista. É um sentimento (não é possível entender o racismo como algo racional) de tal modo entranhado na estrutura social que seu combate exige uma atuação conjunta de pais, do Estado e da sociedade como um todo.
E não há nada pior, para lidar com um problema, do que fingir que ele não existe. Esconder o preconceito presente em obras de arte não faz com que esse preconceito desapareça. A análise do contexto histórico e cultural faz parte da compreensão de qualquer obra. Mas é óbvio que a luta contra os preconceitos não pode descambar para o ridículo. Há alguns anos foi lançada nos EUA uma versão “reeditada” da Bíblia (um dos livros mais misóginos da história da humanidade) em que Deus era sempre chamado de God-Godess, He-She etc., porque, para os editores, tratar Deus como um personagem masculino era machismo. Em fevereiro deste ano, o Ministério Público Federal tentou tirar de circulação o dicionário Houaiss, porque seus editores se recusaram a mudar o verbete cigano, que conteria expressões “pejorativas e preconceituosas” (deveria ser tirado de circulação também Dom Casmurro, de Machado de Assis, cuja personagem Capitu é descrita com “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”?). Os exemplos são inúmeros.
E por acaso as crianças eventualmente poupadas da leitura de Caçadas de Pedrinho também serão poupadas de marchinhas de carnaval como O teu cabelo não nega (“mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero teu amor”), dos personagens homossexuais das novelas e programas de TV (praticamente todos caricaturais – o que é, claro, uma forma de preconceito), da leitura da Bíblia (indiscutivelmente misógina), dos filmes americanos em que o vilão é sempre o estrangeiro, geralmente árabe, agora que os russos estão fora de moda (xenofobia pura)? Nesse mundo em que os mais diversos preconceitos saltam aos olhos, vindos de todas as direções, proibir a distribuição de Caçadas de Pedrinho ou bolar uma estratégia para “capacitar professores” a lidar com o racismo implícito (ou explícito) na obra – o que me parece inviável do ponto de vista pragmático – vai resolver algum problema?
Há muito a ser feito para combater os inúmeros preconceitos que existem na sociedade. A iniciativa da IARA, embora bem intencionada, não vai ter qualquer resultado prático. Ninguém que não seja racista passará a sê-lo por ler Caçadas de Pedrinho. Nenhum racista deixará de sê-lo (ou será menos racista) por não ter lido o livro. E nenhum adulto, professor ou não, precisa receber capacitação especial (o que quer que isso signifique) para explicar a uma criança que o racismo é um mal terrível a ser combatido. Qualquer adulto minimamente instruído sabe disso. Quanto aos (inúmeros) adultos racistas, de que lhes serviria qualquer capacitação vinda do MEC?
Diz o ditado que a maior artimanha do diabo é convencer os outros de que ele não existe. A pior forma de lidar com o preconceito é escondê-lo e fingir que ele não está lá. Livros, filmes, músicas, qualquer manifestação de pensamento tem de ser entendida à luz de seu tempo e de suas circunstâncias. Ignorar isso é tentar apagar o passado. E como se sabe, quem apaga o passado tende a repetir, no futuro, erros já cometidos.

           


2 comentários:

  1. Olá René, gostei desta matéria, porém não compreendi este trecho: " A análise do contexto histórico e cultural faz parte da compreensão de qualquer obra. Mas é óbvio que a luta contra os preconceitos não pode descambar para o ridículo." pode me explicar por favor?

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  2. Olá, Ground. Obrigado pela visita ao blog e pelo comentário. Fico feliz que você tenha gostado do post.

    Quanto à explicação, tomemos o próprio Monteiro Lobato como exemplo: para compreender "Caçadas de Pedrinho" adequadamente, é preciso que se saiba que a obra é da década de 30, período em que o racismo era mais enraizado na sociedade do que é hoje. Também é bom ler a obra tendo em mente o fato de que Monteiro Lobato era um sujeito conservador e meio racista. Apesar disso, entendo que não cabe censurar ou alterar qualquer obra de arte, mesmo que contenha expressões racistas, porque toda obra tem a marca do seu tempo. Querer editar livros clássicos, suprimindo trechos hoje considerados "politicamente incorretos" é, a meu ver, descambar para o ridículo. Acredito que não se combate o preconceito escondendo-o ou fingindo que ele não existe, e sim analisando suas circunstâncias e apresentando argumentos racionais para demonstrar nosso ponto de vista.

    Espero ter conseguido esclarecer sua dúvida. Um abraço.

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